A classe média
está sob os holofotes, e não é de hoje. Nos últimos dez anos as transformações
político-econômicas propiciaram uma mobilidade social sem precedentes,
permitindo a superação da linha da pobreza para um enorme contingente de
indivíduos e também a emergência dos menos pobres ao valioso status social de
classe média. Como um rastilho de pólvora, as mudanças rapidamente provocaram
uma corrida por informação sobre essa nova configuração: o censo se modernizou,
os questionários gradualmente se tornaram mais intrusivos. Ofegantes, as
empresas precisavam decodificar um perfil para tornar a publicidade mais
sensível; os partidos necessitavam saber seus anseios e a partir deles afinar a
retórica e torna-la atraente.
Tanta atenção
provocou incômodo, e da “nova classe média” as generalizações passaram à
especulação sobre toda a classe. Afinal, o que ela representaria? A
opinião recorrente a descreve como uma trincheira, protegendo a elite à medida
em que absorve seus ideais e estilos de vida, enxergando-se como pertencente a ela.
No entanto uma pergunta potencialmente mais esclarecedora é também a mais rara:
de onde essa classe surgiu, como sua história ajuda a entender a conjuntura
atual? Essas questões parecem contagiar Kleber Mendonça Filho, que debruça suas
lentes (e microfones) sobre a Recife atual, e no seu passado escravista, para
representar o que pensa ser as ambições e preocupações da classe média.
Divido em três
atos, o filme focaliza um bairro nobre da capital no momento em que uma equipe
particular de segurança aparece oferendo seus serviços. Não há uma trama
delimitada e sim um passeio da narrativa pelo cotidiano e relacionamentos dessa
vizinhança, com especial atenção à três personagens: João, um corretor de
imóveis empregado num negócio familiar de seu avô Francisco; Bia, uma moradora
local, dona de casa e mãe de dois filhos, que tenta superar a opressão de viver
cercada por grades usando seus eletrodomésticos, seja para silenciar os
cachorros da vizinhança, seja para inventar formas exóticas de recreação. Já Clodoaldo
(Irandhir Santos) é o chefe da empresa de segurança a negociar com a autoridade
local o serviço particular de proteção.
A exploração
dos personagens é feita sob um olhar voyeur, objetivo, capturando com
distanciamento seu objeto e, por isso mesmo, pretensiosamente realista. É por esse
estilo de registro que observamos a negociação de João com uma senhora a pedir
redução do aluguel de um imóvel cujo último proprietário cometeu suicídio, ou
os recados amorosos escritos no pavimento, só para serem borrados pela chuva na
sequencia seguinte. Com indiscrição espionamos os agarramentos de um jovem
casal adolescente e as manias curiosas de Bia, que despacha os filhos para o
inglês para ficar só, comprar maconha e se masturbar com a vibração da máquina
de lavar.
Essas pequenas
transgressões confrontam a mesmice do cotidiano de isolamento nos prédios, numa
tentativa de lhe conferir mais sabor. Ao mesmo tempo, busca-se desenhar um
perfil comportamental de classe média, diferente daquele idealizado pelos meios
de mídia como sendo da elite, a qual a primeira buscaria imitar. Longe da
higiene comportamental a prescrever uma relação familiar no momento da
refeição, no jantar da família de Bia todos parecem estar com os pensamentos em
outro lugar: os filhos questionam a
necessidade de aulas particulares de inglês quando já aprendem o idioma na
escola. A menção faz Bia sorrir, talvez relembrando dos momentos propiciados
por essa ausência. A discrepância fica explícita quando a câmera passa a
enquadrar a televisão da sala ao lado, exibindo um balé de talheres e taças sob
a harmonia de um jantar de gala.
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Os contornos
da classe ficam mais evidentes na sugestão de sua natureza individualista e
apática frente aos problemas alheios, como na famigerada reunião de condomínio
em que os moradores discutem a demissão do zelador. O trabalhador é flagrado
cochilando constantemente, e assim submetendo os inquilinos a grandes perigos,
como o de receber sua Veja fora do saco. Apesar de idoso, em idade de se
aposentar, sua atitude não é absolvida por eles, que o acusam de incompetência
e desonestidade, já que estaria dormindo para apressar a demissão e o
recebimento dos direitos. Incapazes de entender a situação por uma outra lógica
que não a deles, quase decidem unanimemente pela demissão por justa causa
quando João, o corretor, tenta fazê-los perceber a crueldade dessa resolução.
João é logo contestado, mas não enfrenta os moradores, aproveitando o toque do
celular para fugir da situação. Mesmo quando é capaz de pensar fora da caixa, a
classe média de Mendonça Filho evita qualquer atrito político, exceto quando se
trata de uma luta que lhe traga vantagens.
Não podemos esquecer o som, utilizado aqui nos
mais diferentes contextos e sempre enriquecedor à narrativa. Ampliando o volume
de certos elementos o diretor pontua sentimentos, conduz nossa atenção e,
principalmente, cria tensão. O ruído estridente da lixadeira elétrica demarca a
presença de um trabalhador nas vizinhanças, assim como o eco de marteladas
ouvido por Bruno, quando olha do terraço os edifícios cercados por uma favela
crescente. É principalmente através do som que se demarca o conflito de classes,
cujo ápice é representado na paranoia da classe média com a expectativa
constante de uma revolta da “ralé”. Um dos maiores motivos para a auto
reclusão, esta é explorada sombriamente num pesadelo da filha de Bia, no qual
uma invasão dos favelados acontece no condomínio enquanto ela observa tudo,
aterrorizada, da janela do quarto.
Mas a chave
para a compreensão dessas tensões está no passado, e nesse sentido o pensamento
de Kleber Mendonça é bem Freyriano. Se no prólogo o diretor nos mostra fotos
antigas, entre elas a de um fazendeiro e sua multidão de dependentes, segurando
papéis (títulos eleitorais?), no presente temos Francisco, coronel local, dono
de quase todas as casas da vizinhança, paternalista, descendente de Senhor de
engenho do interior. É em torno dele que se organizam as relações familiares,
ele é a lei: dá a palavra final sobre a
instalação da equipe de segurança “contanto que não se metam com meu neto
Dinho”, um “marginal bem nascido”. Desafia até a autoridade da natureza, tomando
banhos à noite em áreas propensas à ataques de tubarão.
É também sintomático
que o passado seja lembrado por estes personagens com nostalgia. Quando Francisco,
seu neto João e a namorada visitam o engenho, rememoram com saudade o velho
cinema em ruínas para depois se refrescarem numa queda d’água. Os moradores da
casa grande parecem não lembrar-se da senzala, dos indivíduos escravizados que
morreram construindo o patrimônio para outrem, e do suor de seus descendentes,
cuja servidão permitiu a manutenção de riqueza e status por eles, através dos
tempos. Mas o espectador não é furtado de ver todo o sangue em que estão
encharcados.
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Eis o entrave
a ser superado: O som ao redor questiona
essa alienação do passado, evocando à classe média sua parcela de
responsabilidade sobre a tensão e os problemas dos quais ela se esconde atrás dos
muros do condomínio, relembrando que entre a construção histórica das
desigualdades sociais do país e a acumulação de riqueza de alguns existe um
passado em comum. E se o caminho sugerido para a superação principia com essa
tomada de consciência, o recado para os que se mantém ignorantes é bastante
claro: assim como Francisco, pagarão os juros da dívida. E se existe algo que
poucos sairão sem perceber neste filme é que as grades não isentam nem protegem
ninguém.
O som ao redor – 2012, 131 minutos.
Origem: Brasil.
Gênero: Drama, Thriller.
Direção|Roteiro: Kleber Mendonça Filho.
Fotografia: Fabrício Tadeu.
Edição de som: Pablo Lamar.
Fotografia: Fabrício Tadeu.
Edição de som: Pablo Lamar.
6 comentários:
Ótimo texto Cleidson. Fui ver no cinema aqui em SP e achei sensacional. Grande estréia de um crítico para a tela. O Som ao Redor é provocante e entorpecente do início ao fim. A edição de som é outro triunfo. A cena final entre o velho e os seguranças é tensa!
Abs.
Obrigado pela atenção, Rodrigo!
Bela crítica a um lindo filme. Bem construída, formulada e valorosa.
Parabéns!
Muito obrigado, Gabriel!!
Texto excelente. A construção e as associações com fatores sociais só poderiam vir de um historiador como você. Parabéns pela escrita!
O filme, por sua vez, é uma grande oportunidade pra discutir o lugar da classe média brasileira sem apelar a determinismos e a um olhar verticalizante. Gostei muito.
Obrigado, Trick! Vindo de você me sinto enormemente orgulhoso que tenha gostado da escrita. Saiba que gosto demais dos seus textos! :D
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