Pária (Pariah) – 2011, Cor, 103 minutos.
Direção: Dee Rees.
Roteiro: Dee Rees.
Cinematografia:
Bradford Young.
Elenco original:
Adepero Oduye, Kim Wayans e Aasha Davis .
A melhor definição pra pária é “aquele que não cumpre seu papel social.”. Ao não assumir a identidade que o grupo social determina, ou ao não se encaixar nos requisitos predeterminados de sociabilidade, o indivíduo passa por um processo de exclusão, voluntário ou não. Na Índia, por exemplo, temos os dálits, ou intocáveis. Apesar de que na atualidade, a mobilidade social dos hindus esteja mais flexível, ainda são os referenciais mais lembrados. E apesar deste pequeno prólogo, não é sobre os dálits hindus que a diretora e roteirista Dee Rees quer falar em seu primeiro filme. Ao retratar o processo de amadurecimento de uma adolescente gay que está desvendando sua identidade, Rees nos mostra como em nossa sociedade criamos nossas párias. Processo aqui é, de fato, a palavra chave.
Somos apresentados
à personagem principal, Alike (ou Lee), durante uma noitada numa boate de
streaper para lésbicas com sua amiga Laura. Nos trajes “de garoto” e na sua
postura, Lee afirma sua sexualidade, embora sinta timidez em se juntar às
amigas no assédio à pole dancer, ou mesmo no flerte com outras garotas na pista
de dança. É como se ela tateasse os modos de vida de uma identidade que a
define, mas que não lhe é totalmente conhecida. Lee, como dito, é uma
adolescente.
No seu caminho para casa, percebemos suas peculiaridades.
Lee insiste que sua amiga não lhe acompanhe até sua casa, e com certa violência
a induz a descer na parada próxima. Afundando no banco, ela começa a retirar o
boné, o casaco, colocar os brincos, mostrar o cabelo. Com relutância e
embaraço, ela se “desmonta” de Lee e volta a ser Alike. Ao atentar para esses
detalhes, percebemos como a observação intimista de Rees do cotidiano de Alike é fenomental. Filha mais velha de uma família tradicional, negra, ela sofre por
não cumprir bem o papel social que lhe é designado.
Num momento à mesa, enquanto sua irmã mais nova conversa
descontraidamente sobre fazer sexo com rapazes na festa do baile, Alike
desconversa quando sua mãe, religiosa, prefere inquirir sobre sua falta de
interesse em ir. Encontra uma fuga para esta conversa em seu pai, sempre
distante, mas que tende a concordar mais com a filha que com a esposa. Apesar
de chamá-la de “minha garota”, o relacionamento entre os dois é mais parecido
com o de pai e filho. O relacionamento conturbado entre mãe e filha advém
justamente dessa falta de entendimento e identificação entre ambas, agravada
regularmente pelas "tentativas de aproximação" da superprotetora mãe,
na forma de presentes como vestidos. Testes, na verdade, esse pequenos subornos
são feitos com intenção de sondar e converter sua filha, num caminho totalmente
contrário à uma tentativa de entendimento. Ademais, a heteronormatividade de
sua família não lhe parece de nenhuma forma atraente, uma vez que seus pais
vivem um casamento de aparência, e telefonemas recebidos pelo seu pai durante a
madrugada parecem lhe mostrar o real motivo para o distanciamento do mesmo.
Na busca por definição, Alike se arvora na amizade com
Laura, mais velha, lésbica assumida, independente, embora de baixa instrução.
Uma amizade guiada tanto pela busca por experiência quanto pela identificação de
Laura. Num dos muitos movimentos inteligentes do roteiro, Rees separa as amigas
para introduzir um novo viés para sua história de amadurecimento adolescente:
Lee é obrigada a conviver, graças à mãe, com uma garota lésbica, só que ainda
no armário. A aproximação das duas, no entanto, aumenta a crise de Lee: o que
parecia um promissor início de namoro apenas trás decepção. No sexo ela
demonstra sua inexperiência, frustrando sua amante, que a faz compreender a
frivolidade da relação que tiveram, exigindo segredo sobre o acontecido.
Rees desempenha um trabalho exemplar também em extrair de
seus atores boas atuações, sobretudo de Adepero Oduye, que interpreta Alike.
Além de ser extremamente convincente em cada papel social que representa, o seu
trabalho com o olhar é notável, conseguindo demonstrar esperança, força, no seu
choro contido, e completude, quando finalmente compreende o funcionamento da
sociedade e encontra nela seu lugar. A trilha sonora é eficaz, composta
basicamente de música underground, e a fotografia funciona, apesar da paleta
digna de filtro do instagram, ousando em alguns momentos cruciais. A explosão
de branco nas cenas finais é um exemplo interessante dessa ousadia, embora não
realmente excepcional.
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Dee Rees, diretora e roteirista |
Estou quebrada. Estou livre.
14 comentários:
Não conhecia esse filme. Vou assistir, com certeza.
Recomendo, é um ótimo filme, não sei como ficou tão escondido, ano passado. E é o primeiro filme dela, achei um ótimo começo!
Estava lendo algumas listas de final de ano, e uma do New York Times das grandes atuações de 2011 me chamou a atenção. Tinham os conhecidos George Clooney, Ryan Gosling, Rooney Mara, Jessica Chastain, Michael Shannon... E, no fim, uma mulher que eu não conhecia de nome Adepero Oduye. Óbvio que fui procurar quem era essa, mas por não ter achado o filme na época, deixei de lado. Agora li seu texto, acendeu a chama novamente e acabei de achar Pária. Vou conferir agora! Parabéns pelo debut textual, viu?
Muito obrigado Gabriel, vindo de você é um grande elogio! É um ótimo filme, me deixou nervoso de assistir e pensar nesse período da vida. Agradeço muito a você pela visita, espero que volte sempre!
Anotado Cleidson!
Você disserta muito bem. Ótimo. Contextualizado.
Gostei da forma como você avalia cada setor do filme.
Já tinha lido sobre ele, mas agora preciso procurar urgente.
Gostaria de fazer parceria com o Cinema Rodrigo?
Linkando seu blog!
Abraço.
Oi Rodrigo, obrigado pelos elogios, fico super feliz uma vez que você também escreve sobre cinema, rsrs. Vale a pena ver sim, é um ótimo filme, com atuações impecáveis! Gostaria de parceria sim, amanhã faço um blogroll e incluo seu blog! Obrigado pela visita e pelo link, espero que volte sempre!
Cleidson, assim como o amigo Gabriel, já tinha ouvido falar nesse filme, mas deixado de lado. Teu texto maravilhoso me fez voltar os olhos novamente para ele. Certamente procuro para conferir. Parabéns pelo espaço, de muito bom gosto. Já vou linkar ele no Espectador Voraz. Vc tem q criar um gadgets de seguidores e blogs amigos. Grande abraço.
http://espectadorvoraz.blogspot.com.br/
Obrigado pela visita Celo, e pelo elogio também! E agradeço demais o link no seu blog. Hoje mesmo foi colocar esses espaços que faltam, e colocar os blogs dos amigos lá. Abração!
Gracias Cleidson! Muito bom seu blog e os escritos sobre o filme. Fiquei curiosa sobre a nacionalidade dos títulos que postou. Seá que não vi onde consta? Senão, fica a sugestão...abraços.
Obrigado Ivone Maia, pela visita! Realmente, eu não citei diretamente a nacionalidade das obras, não por não achar importante, mas porque geralmente são filmes estadunidentes. Mas vou prestar mais atenção sim, planejo ainda essa semana postar sobre uma animação do brilhante Satoshi Kon, que é japonesa, e dará pra trabalhar até o contexto histórico ao qual o filme faz alusão, de mil anos! Abração!
Pois é...esse de Rees, me ocorreu que pudesse ser de algum país africano, pelos nomes...então fica o pedido para inclua a nacionalidade dos filmes. Vou procurar o filme pra assistir, seu escrito produz esse efeito :) Gracias!
Sim, principalmente pelo nome também da atriz, mas é uma produção quase independente, lançada acredito que no Festival Sundance. Vou seguir sua dica sim, realmente é uma informação relevante. Me sinto lisonjeado, tenho certeza de que vai gostar tanto como eu gostei! Obrigado e seja sempre bem-vinda para opinar, debater... Abraços!
vou procurar correndo esse filme pra ver ..
Deícia seu blog, Dario, estou lendo aqui e tô curtindo muito. Obrigado pela visita, procure mesmo, é um filme que chama mais atenção pelos detalhes na reprodução de um universo que poucos conhecem, até certo ponto um tanto previsível, mas ainda assim um belo filme, tenho certeza que vais gostar.
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